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ENTREVISTA
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Qualquer pessoa pode empreender hoje?

Kival Chaves: Desde que sejam adotadas certas atitudes. Há cinco pontos que podem ser destacados. O primeiro, é que o empreendedor deve estar orientado para negócio. O segundo é que preciso buscar construir algo significativo. Em terceiro lugar está a capacidade de assumir riscos, de viver essa inquietude de quem está sempre se arriscando. A componente de risco está sempre presente na atitude do empreendedor. Ele não busca a segurança. A pessoa que busca a segurança vai ser um empregado e vai ser remunerada por isso. O que diferencia o empreendedor é a capacidade de assumir riscos, que é recompensada pelo sucesso e pela capacidade de absorver os insucessos. A quarta característica é a tenacidade, ou seja, a capacidade de buscar com determinação aquilo que ela quer. A quinta característica, não é muito presente na cultura brasileira, é mais presente na cultura norte-americana. Aqui no Brasil não se pode ter insucesso, o insucesso te condena. E o empreendedor tem que conviver com isso, se um empreendimento que ele fez não foi bem sucedido, ele se prepara e empreende novamente. Aquilo não o condena. O eventual fracasso numa primeira tentativa traz infinitas lições para o próximo negócio. Deve ser entendido como uma curva de aprendizagem. Então eu destacaria esses cinco pontos assim: orientação para negócios, a busca de algo significativo, a capacidade de assumir riscos, a tenacidade para não desistir, a capacidade de lidar com os fracassos.

É preciso estudar muito?

Fernando Dolabela: O empreendimento nasce pequeno. A grande arma do empreendedor emergente é a inovação. Outra coisa importante é a capacidade que ele sente de mudar o mundo. Ele tem que sentir que ele tem essa capacidade. Como o Kival Chaves disse, o empreendedor assume riscos moderados. Ele assume riscos, mas procura minimizar os riscos. Uma coisa interessante é que existem estudos que dizem que todos nós nascemos com a capacidade para empreender. O ensino, o processo de aculturação, é que inibe essa capacidade. Para minha surpresa, nos Estados Unidos eles têm essa preocupação, lá que é o berço do empreendedorismo. Há uma iniciativa em Chicago, onde estão trabalhando em jardim de infância até high schooll tentando recuperar essas características empreendedoras. Respondendo a sua pergunta é importante ter atitudes. Nós estamos falando de uma área que o processo é decorrente de um processo de ser.

Kival Chaves: O eventual insucesso deve ser entendido como aprendizado.

Fernando Dolabela: O empreendedor encara o insucesso como um erro qualquer. Essa é a maneira como ele aprende. O insucesso é quando ele faz, erra e não aprende. A única forma do empreendedor aprender é fazendo. Porque ele sempre trafega no novo. Eu estou trabalhando atualmente com dois conceitos fundamentais. Um é o de encubadora social. Estou plenamente convencido de que o fato da pessoa ser capaz de empreender depende da sua formação, do seu comportamento, da sua visão do mundo, das suas atitudes. Esse é fundamental. Eu estou envolvido na SOFTEX * com ensino de empreendedorismo universitário. Nós estamos querendo mudar a face das universidades brasileiras que secularmente formam empregados. Nós queremos que elas formem empreendedores. Mas isso não é suficiente, os alunos já chegam com uma cultura não-empreendedora, com a síndrome do emprego. Nós precisamos começar a atuar no Brasil mais cedo. Eu costumo dizer que é no ventre materno. É um problema cultural. Existem sociedades mais empreendedoras que outras. Regiões, grupos étnicos, bairros, cidades mais empreendedoras que outras. É um problema basicamente cultural. O conhecimento na área do empreendedorismo é muito volátil, fluido. Ele desaparece. Ainda mais hoje com essa rapidez. Aí entra o segundo ponto, que é o conhecimento do setor. Essa é a história da minha sobrinha, que diz: Titio, eu quero abrir um negócio, não sei em que. Ela está na estaca zero porque para abrir um negócio, seja ele uma carrocinha de cachorro quente ou seja uma empresa de bases tecnológicas um requisito fundamental é o entendimento do setor. Como se faz o negócio. É nessa hora que nossas universidades se descuidam. Elas ensinam muita tecnologia, mas não ensinam a dinâmica do negócio. A visão do cliente, a necessidade do cliente, a transformação dessa necessidade em especificação técnica, e o atendimento desse cliente, esse é o fluxo do negócio. Não há mais lugar para o profissional que domina apenas a tecnologia do produto. Se ele conhece só isso está em maus lençóis. Ele tem que conhecer o setor para que ele possa inovar. Ele tem que inovar. Ele precisar ter um diferencial, agregar um valor ao seu produto. Um novo valor para o cliente. Quem compra está em busca de economia, de inovação.

Kival Chaves: Você pode fazer pesquisa em diversos níveis, mais sofisticada, pode contratar uma consultoria, ou pode pesquisar na Internet, se informar nas entidades de classe, em publicações. Mas você tem que fazer uma análise de mercado. Você tem q fazer antes, senão ninguém vai comprar, e a culpa é sua. Esse é um vício técnico. Os profissionais de software têm a formação inicial técnica. Nesse caso, têm que procurar um sócio que responda pelas outras partes, e fazer uma parceria. Alguém da área de finanças, alguém de marketing. Dois ou três sócios, um é diretor técnico, outro diretor financeiro etc. E você já tem três pessoas que já cuidam de 3 dimensões. Se cada um escrever uma folha de papel sobre aquele negócio, então eles quase têm um business plan.

Fernando Dolabela: Você tocou num ponto delicado. Compare, por exemplo, uma grande panificadora e o Bill Gates. O que eles têm em comum: um sabia fazer pão e o outro sabia fazer software. Nenhum dos dois conhecia o mercado. Toda nossa literatura é voltada para grandes empresas. Os livros falam para que se contrate um consultor. Essa não é a realidade. Tanto Bill Gates e o negociante da padaria não contrataram e tiveram sucesso. Mas, milhares faliram. O que eu digo para os meus alunos é que o sujeito pode e deve fazer a própria pesquisa. É fundamental. É preferível entrevistar 20 clientes em potencial do que nenhum. Esse é o grau de risco. No meu livro, que eu me baseio num fato real, a pessoa, empreendedora, entrevistou 200 clientes, só nos sábado, porque trabalhava durante a semana. É possível isso. Os nossos colegas administradores não escrevem para empresas emergentes. O pessoal de marketing, com raríssimas exceções, não escreve para empresas emergentes. O pessoal de finanças não escreve para empresas emergentes. O que quer o empreendedor é vender. Ele não quer saber finanças, ele quer vender seu produto ou serviço. Essa é uma falha que um programa como o do Softex está preenchendo. Dar instrumentos ao empreendedor emergente para ele mesmo fazer sua pesquisa. Sem a pesquisa de mercado não dá.

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WAGNER MANSUR